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27.08.2017 – Batalhão de Niterói tem quase metade dos veículos parados por problemas mecânicos

POR RENAN ALMEIDA

Sem manutenção por parte do governo do Estado, cerca de 40 carros estão encostados

Jeitinho. Camburão deixa o 12° BPM (Niterói) sem o vidro traseiro e com o para-choque preso por arame - Thiago Freitas / Thiago Freitas Publicidade

Jeitinho. Camburão deixa o 12° BPM (Niterói) sem o vidro traseiro e com o para-choque preso por arame – Thiago Freitas / Thiago Freitas
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NITERÓI – Na megaoperação que mobilizou no último dia 5 mais de 2.600 homens das Forças Armadas e das polícias Civil e Militar em comunidades de Niterói, enquanto o Exército deslocava seu efetivo pelas ruas em tanques blindados, jipes e caminhões, parte dos policiais do 12º BPM (Niterói) teve que usar outro aparato para chegar a sua posição: os ônibus. O cenário descrito pelos próprios PMs é reflexo da baixa na frota da corporação. Sem manutenção, cerca de 40 carros estão parados após apresentarem problemas mecânicos diversos ao longo dos últimos anos. O número representa quase metade dos pouco mais de cem veículos do batalhão.

segurança Niterói 27/08

O problema foi confirmado por oficiais e ex-oficiais do batalhão de Niterói e por organizações da sociedade civil que apoiam a polícia financiando o conserto dos carros. A situação da frota não é segredo para os envolvidos com segurança pública. Periodicamente, o tema é discutido em reuniões com representantes do Conselho de Segurança. Sob o argumento de que uma crítica pode acarretar em algum tipo de repressão, os PMs falam pouco e pedem para não ser identificados. A recente instalação de câmeras na maioria dos DPOs para segurança dos policiais inibe a conversa com a equipe de reportagem, mas não impede que alguns confirmem que o atual cenário é complicado.

— Se não tivermos parcerias com oficinas, não trabalhamos. O estado está falido — disse um PM

‘FIQUEI NA MÃO MUITAS VEZES’

Outro PM contou que já ficou a pé várias vezes durante o serviço.

— Pneu estoura, carro não liga, escape arrebenta. Fiquei na mão muitas vezes — contou ele, acrescentando: — Vai lá nos fundos do batalhão que você vai encontrar pelo menos 20 viaturas encostadas.

Viatura da Polícia Militar é reformada em oficina com apoio da sociedade civil organizada - Divulgação

Viatura da Polícia Militar é reformada em oficina com apoio da sociedade civil organizada – Divulgação

Devido a essas parcerias citadas pelo policial, é comum ver veículos da PM com adesivos de oficinas colados na carroceria, às vezes, mais de um. A última renovação na frota do 12° BPM ocorreu em 2014, com a entrega de 88 carros. Ocorre que, devido ao uso intenso, a vida útil média dos automóveis é de dois anos, segundo policiais. Mesmo os que conseguem se manter em rondas, dificilmente estão em bom estado. O GLOBO-Niterói percebeu carros circulando sem vidro traseiro, com para-choques pendurado por arames e sem retrovisor, entre outros danos.

Coincidência ou não, o patrulhamento não é visto com a frequência desejada por moradores de algumas regiões. A analista Amanda Torres diz que é raríssimo ver um carro de polícia passar na porta de sua casa, no Fonseca.

— Quando vejo patrulha, é na Alameda. Nas ruas internas, não lembro de ver polícia há muito tempo — conta Amanda. — O caminho do ponto de ônibus até a minha casa é sempre tenso à noite.

Já no Centro e em Icaraí, nas últimas semanas, houve reforço no patrulhamento feito por policiais que aderiram ao Proeis — programa financiado pela prefeitura, que disponibiliza 150 vagas diárias para que PMs trabalhem na cidade durante suas folgas. A grande maioria, porém, faz rondas a pé.

— Está bem mais policiado durante o dia. À noite é que não mudou muito — diz Lucas Rodrigues, bancário que trabalha no Centro.

Ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), o antropólogo Paulo Storani lembra que quando era da ativa, havia oficinas dentro dos batalhões. Elas foram desativadas na gestão do ex-governador Sérgio Cabral, que optou por fechar contrato com uma empresa privada para manutenção da frota. O contrato foi encerrado no ano passado.

— A partir do momento em que o estado não tem condição de honrar com os contratos, acaba a manutenção. A empresa não faz mais, e a polícia não tem sequer uma estrutura mínima. Então as viaturas param indefinidamente, até que a comunidade local e empresários, sabendo disso, porque o comando tem que dar satisfações, acabam oferecendo essa ajuda para poder funcionar. Hoje, se não for desse jeito, não tem viatura nas ruas — diz Storani.

FROTA EM MAU ESTADO DE CONSERVAÇÃO - Thiago Freitas / Agência O Globo

FROTA EM MAU ESTADO DE CONSERVAÇÃO – Thiago Freitas / Agência O Globo

O conserto dos carros enguiçados passou a ser feito por grupos da sociedade civil. No último dia 11, por exemplo, a 5ª CIA (responsável pelo policiamento na Região Oceânica) recebeu um carro, cuja reforma custou R$ 6 mil. Arcaram com os custos da oficina os conselhos comunitários e de segurança, associações de moradores, condomínios e comerciantes da região. O presidente do Conselho de Segurança da Região Oceânica, Renan Lacerda, é um dos que ajudaram a viabilizar o reparo:

— Mesmo sacrificados com taxas e impostos, nós entendemos que a manutenção desse serviço é fundamental. É uma questão de vida ou morte.

 

MUNICÍPIO: R$ 6 MILHÕES PARA CONSERTO

A PM confirma que, devido à crise, apenas pequenos reparos são feitos pela corporação. Apesar da falta de manutenção, acrescenta que as viaturas circulam “praticamente na sua plenitude, não havendo prejuízo no policiamento”. Em relação ao auxílio da sociedade, avaliou que é de grande valia: “mostra que a sociedade se solidarizou com a situação”.

Presidente do Conselho de Segurança de Niterói, Leandro Portugal critica a falta de investimento do estado em batalhões e delegacias.

— É um absurdo chegar ao ponto de o coronel e o delegado ficarem pedindo dinheiro e botando do próprio bolso para os equipamentos funcionarem.

Esse tipo de manutenção providenciada pela população, entretanto, pode, eventualmente, levar um desequilíbrio na cobertura policial, avalia Storani:

— Sem dúvida alguma, aquela área onde os empresários tiveram desprendimento, ou aquele condomínio, ou associação, acaba sendo beneficiada. Não que isso seja estabelecido em documento, mas é como uma dependência moral dos policias com aqueles que ajudaram a instituição a funcionar.

Em abril, a prefeitura anunciou que investiria R$ 6 milhões na manutenção e no abastecimento dos veículos do 12° BPM. O município disse que está em fase final o processo licitatório, por pregão eletrônico, para contratação de empresa especializada para conserto e manutenção das viaturas da polícia e da Secretaria municipal de Obras Públicas.

Fonte: Site do O Globo

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